Endosso de dois nomes de peso da economia fortalece governador gaúcho na corrida interna contra Ronaldo Caiado e dificulta decisão do comando do partido
O apoio declarado dos economistas Pérsio Arida e Armínio Fraga ao governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, elevou a temperatura da disputa interna do PSD pela candidatura à Presidência da República em 2026. O movimento amplia a pressão sobre o presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, que prometeu definir até o fim de março quem representará o partido na corrida ao Palácio do Planalto.
Leite disputa espaço com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, em uma batalha que expõe diferentes correntes dentro do PSD. De um lado, Caiado reúne apoio de setores do agronegócio e de alas mais conservadoras ligadas ao bolsonarismo. Do outro, Leite tenta se consolidar como alternativa de centro, com discurso de equilíbrio institucional e diálogo com diferentes espectros do eleitorado.
O reforço vindo de Arida, um dos formuladores do Plano Real, e de Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, é visto como um gesto político de forte simbolismo. Ambos defenderam, em 2022, a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra Jair Bolsonaro, mas agora sustentam a necessidade de uma candidatura que rompa com a polarização entre lulismo e bolsonarismo.
Durante agendas em Porto Alegre e São Paulo, os dois economistas não esconderam a preferência pelo governador gaúcho. Armínio afirmou acreditar que Leite pode recolocar o Brasil em uma trajetória de desenvolvimento, enquanto Arida comparou o perfil do governador ao de lideranças políticas com visão de país e capacidade de diálogo.
Nos bastidores, o endosso do mercado financeiro e de nomes influentes da economia fortalece a tese de que o PSD deveria apostar em um nome mais moderado e capaz de ocupar o espaço de centro no cenário eleitoral. Essa é justamente a principal bandeira levantada por Leite, que tem repetido ser o único pré-candidato do partido capaz de representar esse campo político.
Em entrevistas recentes, o governador gaúcho afirmou que o centro não pode ser confundido com neutralidade e defendeu o que chamou de “centro posicionado”. Segundo ele, é possível combinar firmeza em temas como segurança pública e responsabilidade fiscal com sensibilidade social e proteção aos mais vulneráveis, sem reproduzir os extremos da polarização nacional.
Leite também deixou claro que só deixará o cargo no Rio Grande do Sul para disputar a Presidência da República. O prazo para a desincompatibilização termina em 4 de abril, e o governador descartou qualquer composição que não o coloque como cabeça de chapa. A declaração aumenta a pressão sobre Kassab, que se vê obrigado a acelerar uma definição em meio ao avanço das articulações internas.
A disputa ganhou novos contornos após a desistência de Ratinho Júnior de participar do processo interno do partido. Com isso, a escolha passou a ficar concentrada entre Caiado e Leite, tornando ainda mais estratégico o posicionamento de lideranças econômicas, políticas e empresariais em torno de um dos nomes.
Além de se apresentar como alternativa de centro, Eduardo Leite tem buscado endurecer o discurso institucional. Ao comentar o cenário nacional, afirmou que eventuais crimes cometidos por presidentes da República ou mesmo por ministros do Supremo Tribunal Federal devem ser investigados e punidos com rigor, independentemente de filiação política ou posição institucional.
O governador também defendeu uma ampla reforma política, incluindo mudanças no sistema institucional e discussão sobre mandatos para ministros do STF. Para ele, o país não pode seguir preso a crises permanentes e precisa reorganizar suas estruturas para garantir estabilidade e governabilidade.
Com o prazo apertado e a pressão crescendo de todos os lados, Kassab terá de escolher entre duas estratégias distintas: apostar em Caiado, nome mais alinhado ao eleitorado conservador, ou abrir espaço para Leite, que tenta construir uma candidatura de centro com apoio do mercado e discurso de superação da polarização. A decisão pode definir não apenas o rumo do PSD em 2026, mas também o papel do partido no redesenho da disputa presidencial.



