Pesquisadora faz vaquinha para bancar parte do doutorado e vira chacota nas redes: ‘É a realidade da ciência no país’

Vaquinha para doutorado expõe dificuldades da ciência brasileira e provoca onda de ataques nas redes Uma pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina tornou-se alvo de comentários ofensivos após pedir ajuda financeira para custear uma despesa necessária à continuidade de seu doutorado no exterior. Talita Motta Beneli, doutoranda em Ecologia, precisava arrecadar R$ 8 mil […]

Vaquinha para doutorado expõe dificuldades da ciência brasileira e provoca onda de ataques nas redes

Uma pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina tornou-se alvo de comentários ofensivos após pedir ajuda financeira para custear uma despesa necessária à continuidade de seu doutorado no exterior.

Talita Motta Beneli, doutoranda em Ecologia, precisava arrecadar R$ 8 mil para pagar o processo de emissão de um visto exigido para realizar parte de sua pesquisa na Austrália.

O pedido, inicialmente compartilhado em uma rede social com menos de mil seguidores, ganhou grande repercussão após ser enviado a uma influenciadora digital.

Pedido de ajuda virou alvo de críticas

Talita foi aprovada para participar de um doutorado sanduíche, modalidade na qual uma parte da pesquisa é desenvolvida em uma instituição estrangeira.

O visto solicitado pela universidade australiana deveria ser emitido por meio de uma agência particular parceira, gerando uma despesa adicional que não estava prevista pela bolsa.

Sem recursos para pagar o valor, a pesquisadora criou uma vaquinha online e enviou o link da campanha a uma influenciadora que acompanhava nas redes sociais.

Horas depois, o pedido tornou-se tema de um vídeo que criticava pessoas que recorrem à internet para financiar seus projetos pessoais.

Embora Talita não tenha sido identificada nominalmente, a publicação provocou milhares de comentários ofensivos.

“As pessoas começaram a me xingar de vagabunda, falar que eu tinha que ir trabalhar, que eu era preguiçosa, sem nem mesmo saber o que estava acontecendo”, relatou.

Estudo analisará peixes e mudanças climáticas

Talita pesquisa comportamento de peixes para entender impacto de mudanças do clima nos recifes 

Talita pesquisa comportamento de peixes para entender impacto de mudanças do clima nos recifes — Foto: Arquivo Pessoal

A pesquisa de Talita busca compreender o que diferentes espécies de peixes comem dentro dos recifes e qual função cada uma desempenha nesses ecossistemas.

Uma espécie pode ajudar a controlar o crescimento de algas, enquanto outra depende diretamente dos corais para se alimentar.

A perda de determinados peixes pode eliminar funções que não são realizadas por nenhuma outra espécie presente na mesma região.

O trabalho compara recifes de diferentes partes do mundo e pretende preencher uma lacuna científica existente em uma área da Austrália.

Os resultados poderão ajudar na criação de estratégias de conservação e na identificação de espécies e regiões mais vulneráveis às mudanças climáticas.

O episódio transformou uma dificuldade individual em um debate mais amplo sobre financiamento, instabilidade e valorização da ciência no Brasil.

Mesmo após conseguir os recursos, Talita afirmou que o caso mostrou como grande parte da sociedade ainda desconhece as condições enfrentadas pelos pesquisadores do país.

Bolsa não cobria despesa adicional

A vaga foi obtida pelo Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior, da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

O programa oferece mensalidade, auxílio para deslocamento, instalação e seguro-saúde durante a permanência no exterior.

Taxas administrativas, acadêmicas e outras despesas adicionais, entretanto, não são incluídas entre os benefícios.

Talita afirmou que os valores oferecidos também não acompanham integralmente os custos atuais.

O auxílio previsto para a passagem seria de aproximadamente R$ 8 mil, enquanto o trajeto de ida e volta para a região australiana pode custar cerca de R$ 11 mil.

Mobilização permitiu atingir a meta

Talita fez vaquinha para bancar parte de um visto que garante sua pesquisa na Austrália 

Talita fez vaquinha para bancar parte de um visto que garante sua pesquisa na Austrália — Foto: Arquivo Pessoal

Depois da repercussão negativa, Talita decidiu se identificar nos comentários e explicar o contexto da campanha.

Ela detalhou a pesquisa, o doutorado e as dificuldades enfrentadas por cientistas brasileiros que dependem de bolsas de estudo.

O vídeo passou do TikTok para outras plataformas, como X e Instagram, ampliando ainda mais o alcance do caso.

Dois dias depois, pesquisadores e apoiadores começaram a divulgar a história completa, formando uma rede de solidariedade.

A vaquinha finalmente alcançou a meta, permitindo que Talita pagasse pelo processo do visto e mantivesse os planos de viajar à Austrália.

Trabalho científico depende de remuneração limitada

Atualmente, a pesquisadora recebe uma bolsa mensal de R$ 3,5 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação de Santa Catarina.

Segundo ela, o valor é limitado para cobrir as despesas em Florianópolis e não permite a formação de uma reserva financeira para gastos inesperados.

O visto de atividade temporária exigido pela universidade também não permite que a pesquisadora exerça uma atividade remunerada complementar na Austrália.

O orientador chegou a solicitar uma exceção à instituição estrangeira, mas o pedido foi negado.

“Eu trabalho, trabalho muitas horas, e aquilo não tinha nada a ver com a realidade”, declarou Talita sobre os ataques recebidos.